Olhares americanos sobre Portugal

No âmbito dos 40 anos do 25 de Abril, a Paralelo entrevistou quatro importantes investigadores norte-americanos da área política e social, de algumas das mais reputadas universidades do mundo. Todos eles viveram de perto a Revolução Portuguesa e continuam a estudar Portugal. Os acontecimentos de há 40 anos marcaram as suas notáveis carreiras universitárias e, também, pessoais. Divulgamos duas das entrevistas a Nancy Bermeo e Robert Fishman. As entrevistas de Philippe Schmitter e Kenneth Maxwell podem ser lidas aqui.

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“Mal cheguei a Portugal percebi que o meu enigmático interesse era parte de um muito maior e mais complicado drama”, diz Nancy Bermeo.

 

“Tinha a sensação que o mundo estava a fazer-se de novo”

Nancy Bermeo é professora em Oxford. Fez o doutoramento sobre Portugal onde viveu mais de dois anos, depois do 25 de Abril de 1974, e volta frequentemente até para visitar os amigos que aqui fez para a vida. Esta entrevista trouxe-lhe imensas memórias e pensamentos sobre esses dias de constantes mudanças em que os seus estudos do cooperativismo revelaram-se parte de uma complexa e intricada realidade que o País viveu.

[Paralelo] Em termos gerais é considerado que as revoluções frequentemente originam regimes não-democráticos, raramente conduzindo a democracias. A revolução do 25 de Abril foi diferente? Como?
[Nancy Bermeo] É verdade. Muitas vezes associamos revoluções com o estabelecimento de regimes autoritários portanto a pergunta que faz é intrigante. Acho que a Revolução Portuguesa resultou numa democracia consolidada por uma variedade de razões complexas mas as mais proeminentes foram os valores políticos dos militares portugueses e das elites partidárias. O grupo de oficiais que, em última análise, controlou a revolução procurou acabar com a guerra colonial mas, também, quis a democracia para Portugal e isto foi imensamente consequente. As elites portuguesas também merecem todo o crédito por não terem incitado a violência em momento algum da tumultuosa transição.
A violência é sempre uma desculpa para a contraviolência e os que querem o autoritarismo usam esses ciclos de medo para subir ao poder. Esta é a razão porque associamos as revoluções com o autoritarismo – as revoluções habitualmente envolvem violência. Portugal evitou isso.
As elites portuguesas sabiamente enquadraram uma democracia em vez de uma ditadura como chave para estabelecer a ordem. Claro que a base dos resultados positivos reside no próprio povo português. Os militares e líderes políticos eram representantes destes.
Os resultados da primeira eleição mostram bem isto de que falo.

[P] A revolução teve algum impacto na qualidade da democracia? E gerou alguns legados que podem de alguma maneira ajudar ou prejudicar na gestão da crise actual?
[NB] A revolução certamente aprofundou a qualidade da democracia na medida em que expandiu a concepção nacional do que são os direitos fundamentais dos cidadãos. Embora haja outros factores a revolução ajuda a perceber porque é que Portugal é o único país do Sul da Europa com um programa nacional de Rendimento Mínimo Garantido e porque tem sido mais bem-sucedido do que outros países europeus a evitar o racismo e a xenofobia.
Acho que a experiência revolucionária ajudou a lidar com a crise. Em 
cada crise os portugueses melhoraram as suas capacidades para lidar com isso e a sua resiliência. Crises e choques podem trazer polarização ou cooperação. Em Portugal domina a cooperação. Esta é uma conquista rara e algo com que os partidos nos Estados Unidos podiam aprender.

[P] Porque veio para Portugal?
[NB] Era uma estudante de doutoramento em Yale quando decidi estudar Portugal. Quis estudar o sistema cooperativo em que a divisão entre trabalho e capital não existia. As cooperativas industriais e agrícolas que apareceram deram-me a oportunidade de estudar essas experiências. Mal cheguei a Portugal percebi que o meu enigmático interesse era parte de um muito maior e mais complicado drama.

[P] Pode partilhar alguma da sua experiência em Portugal e qual era o seu sentimento relativamente ao que se passava à sua volta?
[NB] Na minha área específica fiquei profundamente comovida pelo orgulho que as pessoas  ganharam com a propriedade mas não há dúvidas que a gestão trouxe pressões e complexidades que os envolvidos não esperavam. Claro que gerir qualquer empresa em Portugal era difícil nos finais de 70.
Lembro-me de dois acontecimentos de interesse. O primeiro que capta os limites da revolução e o segundo que revela o seu importante e duradouro legado.
O primeiro acontecimento deu-se no apartamento de uma amiga onde estava hospedada, mesmo antes de uma manifestação. A minha amiga tinha-se graduado em França (chamar-lhe-ei  Marie) e o seu namorado português era uma figura razoavelmente conhecida da extrema-esquerda (chamar-lhe-ei José). Totalmente surpreendida com mobilizações de massas e inebriada com os slogans e mudanças à minha volta, tinha a sensação que o mundo estava a fazer-se de novo. Mas, ouvi o José a mandar a Maria passar a camisa dele a ferro enquanto ele se penteava… O mundo não se transformaria da noite para o dia… As mobilizações eram representações assim como a política.
O segundo aspecto era as mobilizações de qualquer espécie.  Uma deu-se numa pensão em que eu estive alojada. Tratou-‑se da organização de uma saída nocturna feita pela jovem empregada de mesa, vinda da zona rural, que trabalhava no restaurante da pensão. Foram mobilizadas uma jovem cozinheira, eu e outra estudante e dois rapazes acabados de chegar de Angola. Fomos todos de autocarro a um grande concerto com dança na Universidade de Lisboa. Juntos pelas semelhanças geracionais apesar das diferenças de classe, nacionalidade e simpatias políticas divertirmo-nos – tinham baixado as barreiras entre as pessoas, com o fortalecimento dos trabalhadores, aparecendo redes sociais entre diferentes classes e o desejo de inclusão do “outro” viria a ter mais consequentes e profundas implicações do que estas manifestações que chamavam a atenção.

[P] Qual foi o impacto da revolução na sua carreira e vida pessoal?
[NB] Tendo chegado a Portugal no período pós-revolucionário tive uma perspectiva clara sobre a construção da democracia e aprendi imenso sobre o processo político. Penso sempre na experiência portuguesa quando reflicto sobre mudanças de regime. Relativamente à minha vida pessoal, os mais de dois anos que passei em Portugal trouxeram-me amizades para a vida que são de grande valor para mim.

 

“A crise teve menos impacto negativo em Portugal”

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Robert Fishman: “Fui levado a estudar Portugal em parte devido aos contrastes fascinantes deste país e da sua vizinhança”

Sociólogo e cientista político americano, Robert Fishman dedicou uma parte importante do seu trabalho a estudar Portugal, para onde viaja com frequência. Considera que a democracia portuguesa se desenvolveu de uma forma inclusiva o que permitiu uma maior igualdade entre cidadãos. Defendeu que Portugal não precisava de resgate financeiro.“A revolução marcou as circunstâncias para um tipo de políticas democráticas que por si só não garantem o sucesso mas que impedem que forças marginais moldem os resultados políticos.” diz Fishman que visita Portugal com regularidade.
[Paralelo] Em termos gerais é considerado que as revoluções frequentemente originam regimes não-democráticos, raramente conduzindo a democracias. A revolução do 25 de Abril foi diferente, como?
[Robert Fishman] Primeiro deixe-me dizer que as revoluções às vezes conduzem a democracias. Portugal não foi caso único. As revoluções francesa e americana ambas foram enormes contribuições para a emergência das democracias modernas, apesar dos problemas que também apareceram nestes dois países. Revolução como um tipo de processo sociopolítico não determina por si própria que tipo de sistema político (democrático ou não) irá prevalecer. O resultado dos processos revolucionários é moldado pela identidade política – ou preferências dos seus participantes – e por estruturas externas, condições, forças que interagem. A Revolução dos Cravos acabou numa democracia devido à caracterização política dos seus intervenientes e às condições externas com que a revolução interagiu.
O timing da revolução e a sua localização contribuíram para o resultado mas não podemos esquecer a importância das decisões tomadas pelos seus participantes cruciais. Um factor de vital importância foi a decisão de convocar eleições e preparar uma nova constituição. Essas eleições, na altura simbólica do 25 de Abril de 1975, contribuíram grandemente para o sucesso de Portugal na institucionalização da democracia.

[P] A revolução teve algum impacto na qualidade da democracia? E gerou alguns legados que podem de alguma maneira ajudar ou prejudicar na gestão da crise actual?
[RF] Sim. Eu defendo que os processos social e cultural traçados pela democracia reforçaram a profundidade da democracia portuguesa desenvolvendo um processo inclusivo de democracia que permite a Portugal aproximar-se dos objectivos normativos da igualdade entre cidadãos num nível mais profundo. A revolução marcou as circunstâncias para um tipo de políticas democráticas que por si só não garantem o sucesso mas que impedem que forças marginais moldem os resultados políticos. Isto certamente influencia a maneira como Portugal confronta a crise. As indicações preliminares são que a crise gerou desigualdades em Espanha mas – segundo os últimos dados disponíveis – não em Portugal. O meu amigo Pedro Magalhães deu conta disso no seu muito seguido blogue. Também, noutros aspectos, devastadora como a crise tem sido e continua a ser a experiência portuguesa é menos negativa do que noutros países. Os governos portugueses enfrentaram reais constrangimentos domésticos adaptando o que podem – e o que não podem – para lidar com a crise e até agora parece que terão conseguido resultados relativamente positivos para a sociedade portuguesa.

[P] Porque decidiu estudar Portugal?
[RF] Fui levado a estudar Portugal em parte devido aos contrastes fascinantes deste país e da sua vizinhança – Espanha onde eu vivi e estudei – e, também, pelo interesse intrínseco da cultura e história portuguesas. Estudei um semestre no liceu em Espanha e, na altura, desenvolvi um interesse pela história e políticas da Península Ibérica. Um ano antes da Revolução dos Cravos. Quando a revolução começou em Portugal em 1974, eu, como milhões de outros pelo mundo, acompanhei com muito interesse. Mais recentemente como investigador da sociedade e políticas espanholas vi os contrastes entre os dois países quase como uma experiência das ciências naturais que permite aos cientistas sociais examinarem as consequências de dois caminhos para a democracia de pólos opostos. Foi isso que me levou a estudar Portugal e o que aprendi acerca do país aprofundou o meu interesse.

[P] Que experiências pessoais viveu pelas suas visitas a Portugal?
[RF] A maior parte das minhas experiências em Portugal foi organizada à volta da minha actividade de investigação que incluiu entrevistas com várias pessoas em posições diversas no largo espectro político e social. Claro, tive oportunidade de fazer amizades em Portugal e usufruir da sua cultura, arquitectura, vida e cozinha. A minha mulher – professora de Direito em Espanha e eu – viajámos bastante em Portugal e gostámos muito. Apreciamos a música e o teatro e eu acompanho as notícias dos jornais e televisões portuguesas. Assisti a sessões na Assembleia da República e tenho encontros com muitos investigadores portugueses.
Uma das minhas mais memoráveis experiências diz respeito a um artigo de opinião que publiquei no New York Times, em Abril de 2011, argumentando que as circunstâncias subjacentes da economia portuguesa não obrigavam ao resgate. O meu ponto de vista é que as forças de mercado e a acção das agências de rating, mais do que o estado da economia, empurraram o país para o resgate – com as várias consequências negativas que se seguiram. As reacções foram muito comoventes para mim. Na manhã seguinte tinha uma longa lista de emails – muitos de cidadãos portugueses. Esses mails expressavam um profundo sentido de gratidão pelas minhas palavras na minha análise no New York Times e a minha chamada de atenção sobre o quanto forças de mercado não-reguladas podem cercear a democracia. Claro que alguns emails eram críticos mas a grande maioria era muito positiva (incluindo uma mensagem de um responsável pela negociação de títulos numa importante empresa em Londres).

[P] Quais foram as consequências para a sua vida e carreira por ter estudado Portugal?
[RF] Bem… Fiz bons amigos em Portugal e entre os investigadores portugueses. Acho que o contraste entre Portugal e Espanha abriu-me uma janela para o estudo e análise de processos e resultados profundamente importantes. Isto foi muito positivo para o meu trabalho e carreira, embora goste de ver este tipo de coisas como um resultado de mérito intrínseco do trabalho de investigação.

Por Sara Pina

Fotos Rui Ochoa