Luso-americano nobel da medicina (entrevista)

DO COZIDO DAS FURNAS AO ÁCIDO RIBONUCLEICO

Craig Mello em Ponta Delgada, nos Açores

Craig Mello em Ponta Delgada, nos Açores

Desde miúdo tem um fascínio pela vida: Com a mesma curiosidade parou as brincadeiras no jardim da casa onde vivia, com os seus pais, para observar um pequena tartaruga atropelada, ainda não andava na escola. Já com 18 anos, escolheu estudar biologia molecular ao ler, no Washington Post, sobre a clonagem do gene da insulina humana numa bactéria.

Em 2006, Craig Mello ganhou o Nobel da medicina pelo estudo dos mecanismos do silenciamento de genes portadores de doenças evitando o aparecimento e evolução de várias doenças. É um dos impulsionadores da moderna epigenética que estuda as característica celulares estáveis que não interferem com o DNA.

Lembra-se do seu avô açoriano descrever as ilhas e o cozido das furnas “imaginava lava a sair dos vulcões e as pessoas a cozinharem”. Um cozinhado mágico à semelhança dos seus actuais trabalhos de laboratório onde analisa o RNAi – os mecanismos de interferência no ácido ribonucleico de uma célula que podem inibir processos genéticos malignos.
A filha mais nova de Mello desenvolveu, no primeiro ano de vida, diabetes tipo 1 “ironicamente, a insulina humana, sintetizada a partir das moléculas num processo que me inspirou a seguir biologia molecular, está agora a dar vida à Victoria”. É esse respeito e confiança na investigação médica que dá ao Nobel empenho no seu trabalho em prole da vida.
Mello salienta que também o seu empenho é genético – chama “valor açoriano” à capacidade de sacrifício necessária para desenvolver o seu trabalho, assim como a maneira que encontra para relaxar “velejar […] esquece-se tudo”. Por isso, voltou feliz a Ponta Delgada, em 2012, para receber o doutoramento Honoris Causa pela Universidade dos Açores.

Paralelo– Diz na sua autobiografia que se sente muito feliz em estar vivo e com a vida. Fala-nos dela.

Craig Mello –  Tive muita sorte em ter os pais e avós que tive por que eles amavam a vida e não havia muita pressão com as aparências. Fazíamos imensas coisas juntos. O meu pai era paleontólogo e fazíamos visitas às Rocky Mountains, a Montana e Dakota do Sul para procurar fósseis juntos.
P.– Era uma actividade de família?
C.M – Sim. A minha mãe educou três crianças a que se juntou uma quarta mais nova a acampar. Ela era uma artista, tinha sensibilidade para a beleza do que a rodeava todos os dias e educou-nos a apreciar as experiências da vida.
 P. – Sabia da sua ascendência portuguesa? Até que ponto é que isso esteve presente na sua infância?
C.M. Claro.Todos os anos visitávamos a família e vivíamos emergidos nela. Quando estávamos a crescer o facto mais marcante de ser um Mello é que éramos arreliados por causa do nome. O meu treinador chamava-me Marshmallow [goma em português]. Mas estávamos bem cientes dos nossos antepassados, tanto portugueses como italianos, do lado da minha mãe. Os nossos avós eram pessoas que trabalhavam muito e que nunca tiveram oportunidade de estudar. Nós sabíamos da sorte que tivemos em poder fazê-lo, de ter tido essa oportunidade por que eles trabalharam tanto para nós.
P– Diz que o seu hobby é velejar. É um momento para estar sozinho e de reflexão?
C. M. – Exactamente. Esquecemos tudo. É mesmo importante termos algo nas nossas vidas em que sejamos um só com o que estamos a fazer. Só sentir a existência sem estar sempre a pensar. Pensamos demasiado.
P. Como descobriu a interferência do ARN (ácido ribonucleico) e de que maneira é importante?
C.M. – Estamos a trabalhar nesta área onde analisamos a hereditariedade do mecanismo do silenciamento. Podemos induzir silenciamento de genes [de doenças] em células, numa geração e isso ter efeitos para várias gerações seguintes. Isto é fascinante e tem consequências potenciais na evolução. Um organismo pode evoluir depois de experienciar essa informação e passá-la para os vindouros  […]. Falamos deste campo como a epigenética e está a ganhar muita importância. Leva-nos a perceber alguns mecanismos moleculares envolvidos nas mudanças de informação genética sem alterar o ADN. O ADN é a base da informação genética – descobrimos que podemos modificar a informação genética herdada através da maneira como o ADN é “empacotado”. Além disso, agora, também, sabemos como alterar a herança de ARN passada de geração para geração.
P– O que se pode fazer com esta informação genética?
C.M. – Descobrimos este mecanismo que funciona como um motor de busca, por exemplo, o Google. Há imensa informação numa célula – é como a internet. Como é que controlamos essa informação? Se não temos uma forma de procurar, como a controlamos? [Temos de poder escrever o que procuramos para o motor de busca encontrar]. Sabemos agora que as células lidam com o mesmo problema  e encontraram uma maneira para pesquisar a informação. O que elas fazem é usar uma pequena parte do código genético na forma de ARN para fazer a pesquisa. Assim como podemos escrever no Google, podemos fazer uma consulta em laboratório na cadeia dupla de RNA e quando inserimos isso numa célula animal ou planta podemos procurar lá dentro – é como escrever na janela de pesquisa do Google. […] A mesma busca que fazemos sinteticamente vai para a enzima que usa essa informação para procurar e encontrar toda a informação igual e depois regulamos essa informação.
P.: Diria que o Prémio Nobel o mudou ou mudou o seu trabalho?
C.M. –  Não, não mudou. Nos primeiros anos foi uma locura. Dei centenas de conferências e era insustentável. Mas agora as coisas acalmaram muito e o meu laboratório está bem e a fazer descobertas excitantes que estamos a publicar e a discutir.
P. É bom partilhar e celebrar o seu trabalho nos Açores?
C.M. – Estou feliz por ter renovado os meus laços com os Açores e a minha família aqui, sinto que toda a ilha é a minha família. O meu avô nunca pôde regressar.
P. Reconhece nas suas visitas nos Açores as histórias que o seu avô lhe contava?
C. M. – Algumas delas. O meu avô mergulhava no mar atirando-se dos penhascos. Até agora ainda não vi ninguém fazer isso. Eu não vou fazer isso, embora já tenha mergulhado um pouco. […] Os meus genes de velejador podem ser dos meus antepassados açoreanos.
P. – Na sua autobiografia debruça-se sobre os problemas ambientais e a falta de atenção para estes…
C.M. – Sim. A sustentabilidade ambiental é uma assunto muito importante a que não nos dedicamos. O capitalismo funciona bem por que, basicamente, mantem as pessoas motivadas para trabalhar pela recompensa. Mas não tem em conta o verdadeiro custo das coisas e por isso é insustentável. Se tem recursos limitados e os explora sem olhar para o futuro, o seu capitalismo vai funcionar bem por algum tempo e depois deixa de funcionar ao esgotarem-se as matérias-primas. E isso está a acontecer. […] Se olharmos para a história da humanidade não há muitas provas que alguém esteja a tomar conta de nós. Portanto é melhor nós tomarmos bem conta de nós próprios.
P.: O que podemos fazer?
C. M. – A oportunidade vem pela riqueza. Se perdermos a riqueza estamos só a trabalhar para sobreviver, sem oportunidade de apreender conhecimento. Como cientista, tenho muita sorte de ter tido a oportunidade de fazer o que faço. Isso resulta do trabalho duro de agricultores, de construtores civis, de trabalhadores fabris – as pessoas que fazem coisas para mim. Damos por adquirido que teremos sempre possibilidade de comprar roupas ou arranjar comida. Temos esta oportunidade agora e penso que como comunidade temos de aliar-nos e tentar assegurar o futuro, perceber que temos de viver de uma maneira sustentável.

 Por Sara Pina