Diálogo em português – ensaio do presidente da FLAD, Vasco Rato, publicado no diário i

Imagem do encontro entre políticos portugueses e luso-americanos

Imagem do encontro entre políticos portugueses e luso-americanos

A transição democrática que se seguiu ao colapso do regime autoritário de Marcello Caetano gerou um consenso quanto à política externa que, ainda hoje, continua a ser partilhado pelos partidos que integram o “arco da governação”. Tal consenso traduz-se na aceitação dos três pilares fundamentais da nossa política externa: a presença no espaço europeu, a inserção no mundo da lusofonia e a relação transatlântica.

É sabido que a relação bilateral entre Portugal e os Estados Unidos engloba as questões de segurança e de defesa, geralmente articuladas no âmbito da NATO. Mas é igualmente verdade que a nossa relação com os americanos não se esgota na componente militar, ou seja, há outras dimensões inerentes ao relacionamento que são essenciais para o cumprimento do nosso interesse nacional.

Num mundo caracterizado pela volatilidade geoestratégica é do interesse de Portugal preservar e fortalecer a relação com os Estados Unidos. Durante séculos, face a tentações hegemónicas continentais, Portugal procurou alianças privilegiadas com as potências marítimas dominantes. A centralidade da relação com o Reino Unido e, depois de 1945, com os Estados Unidos, atestava a imprevisibilidade do xadrez geopolítico europeu, e a necessidade de acautelar alianças que garantissem a continuidade do estado português. Por muito que a Europa tenha mudado, as incertezas da actual conjuntura aconselham (just in case) a manutenção da aliança com a potência marítima dominante.

Outras razões justificam a preservação do relacionamento luso-americano. Num momento em que se negoceia o acordo da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), o fortalecimento da economia portuguesa passa por garantir que as nossas empresas tenham acesso ao mercado americano.

Portugal, caso o TTIP seja adoptado, será o centro geográfico da nova zona de comércio transatlântico, beneficiando de um conjunto de novas oportunidades económicas e financeiras. Ao mesmo tempo, o alargamento da plataforma continental significa que a nossa fronteira marítima com os Estados Unidos obriga a uma definição de caminhos conjuntos para desenvolver atividades comerciais no vasto Atlântico.

Para que Portugal possa maximizar as oportunidades que irão surgir nos próximos anos, urge reforçar os laços entre as sociedades civis portuguesa e americana como urge também institucionalizar um diálogo permanente entre os decisores políticos lusos dos dois lados do Atlântico. De acordo com o mais recentes dados oficiais, vivem nos Estados Unidos 1.3 milhões de pessoas de ascendência portuguesa, maioritariamente concentradas nos estados da Califórnia, Massachusetts, Rhode Island, New Jersey, Connecticut, New York e Florida.

Desde 1970, foram eleitos para o Congresso federal seis luso-americanos, todos da Califórnia. Em simultâneo, a nível estadual, assistiu-se a um aumento significativo do número de políticos de ascendência portuguesa.

Resulta claro para a FLAD que, tanto em Portugal como nas comunidades lusas nos EUA, existe a vontade de estabelecer uma plataforma permanente de trabalho entre políticos luso-americanos e decisores portugueses. No seguimento de outros eventos semelhantes, o último dos quais foi realizado em Washington, em Junho de 2014, decidiu-se promover, nos próximos dias 19 e 20 de Fevereiro, um encontro reunindo congressistas federais, senadores e deputados estaduais activos junto das comunidades luso-americanas. Do lado português, estarão presentes altos responsáveis governamentais, líderes partidários, deputados e outros especialistas.

Ao institucionalizar tais contactos ao mais alto nível, estreitam-se os laços entre Portugal e decisores americanos que mantêm uma ligação afectiva com o nosso país. Promovendo o diálogo entre agentes políticos dos dois lados do Atlântico, damos um passo importante para melhor defender os interesses que unem americanos e portugueses.

Ensaio publicado no diário i de 17/02/2015