Como se ensina português na América

 Mais alunos, diferentes, novos manuais e currículos renovados 
– o ensino do português nos Estados Unidos está em transformação.

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Professora Raquel Rosa com os seus alunos do 1.o ano da Escola Portuguesa de Long Branch (artigo Paralelo)

 

A professora Raquel Martins Rosa escreve no quadro duas grandes letras.
“U com I. Como se lê?”, pergunta.
“Uiiiiiii” responde um coro de crianças.
“Agora I com U”, diz, sublinhando cada palavra. “Como se lê?”
“Iuuuuuuu”, devolvem os alunos.
Podia ser uma aula em qualquer escola de Portugal – com o mapa do país junto do quadro, as pinturas de caravelas e oceanos nas paredes, o texto emoldurado sobre Vasco da Gama – até que uma das crianças dispara: ”Teacher, can I…” E é de imediato interrompida pela professora. “Em português”, exclama Raquel. “Aqui fala-se em português.”
A cena acontece na Escola Lusitânia, do Clube Português de Long Branch, em Nova Jérsia. Escolas comunitárias como esta são o nível zero do ensino do português nos Estados Unidos. É nestas salas de aula que a língua abandona os espaços domésticos – as cozinhas e corredores onde as crianças aprendem as primeiras palavras para falar com a “vovó” – e se institucionaliza.
Estas escolas são fundadas, financiadas e geridas pela comunidade portuguesa e recebem apoio pedagógico do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua. No último ano lectivo, tinham cerca de dois mil alunos espalhados por dez estados norte-americanos (Nova Iorque, Nova Jérsia, Pensilvânia, Connecticut, Califórnia, Flórida, Massachusetts, Rhode Island, Washington e Virgínia).
A professora Raquel diz que o desvio da sua aluna para o inglês é agora a norma. “Estamos a falar de uma terceira geração que já não aprende o português como primeira língua”, explica. Há doze anos, quando começou a trabalhar nos Estados Unidos, isso não acontecia. “Quando cheguei, o português ainda era a língua que os alunos falavam em casa. Assisti a essa mudança na última década.” Uma mudança materializada nos manuais que utiliza na sala de aula e chegaram no início do ano, oferta do Instituto Camões.
“Nos últimos anos desenvolvemos currículos adaptados a esta nova realidade”, explica o adjunto da coordenação do ensino do português nos Estados Unidos na área de Nova Iorque, António Oliveira. Esse trabalho resultou na elaboração de “manuais criados e pensados desde raiz com este novo paradigma em mente.” Em dois anos, o instituto distribuirá cerca de quatro mil exemplares.
Outra novidade são os exames de certificação, que os alunos tiveram oportunidade de fazer pela primeira vez este ano. Os exames oferecem a certificação segundo o Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas (QECRL), um guia usado para descrever os objectivos a serem alcançados pelos estudantes de línguas estrangeiras na Europa, e poderão agora ser feitos, todos os anos, no final de cada um dos ciclos (4.º, 6.º e 9.º anos).
António Oliveira diz que “a participação foi satisfatória para uma experiência-piloto”, com cerca de 200 alunos a completar as provas, e que “para o ano os números vão, pelo menos, duplicar ou triplicar.” 
O que o responsável considera “um grande sucesso” são os resultados obtidos: 
“O nível de aprovação rondou os 95%, o que nos dá uma boa indicação da qualidade do ensino.”
Por todo o país, o número de alunos nestas escolas tem vindo a diminuir, devido ao decréscimo da emigração para o país. Mas isso não acontece na Lusitânia, onde o número de alunos se tem mantido e prossegue até ao final de cada ciclo.
“O número de alunos que desiste não é muito significativo”, garante Raquel, explicando que as crianças “começam porque os pais as inscrevem, passam por uma fase em que acham aborrecido e depois começam a ir a Portugal, na adolescência, e ganham interesse novamente. Querem falar com os amigos, as namoradas… percebem a importância de falar outra língua quando se viaja, o valor que tem no mercado de trabalho.”
É o caso de Cristiana Santos, aluna do 6.º ano. “Acho que me pode ajudar a arranjar trabalho quando for grande”, diz a luso-‑americana de 11 anos. Quem lhe explicou essa vantagem, esclarece, foi a mãe. Cristiana tem vários colegas de origem portuguesa na sua escola, mas só um é que tem aulas de português “e os outros falam um bocadinho, mas não muito.”
O presidente da Associação de Professores de Português dos EUA e Canadá (APPEUC), Diniz Borges, explica que “o português concorre hoje com uma amálgama de atividades extracurriculares que não existiam há vinte anos. Há o ballet, a natação, o judo… tudo isso em competição com o tempo que era usado para estas aulas.”
Uma das possibilidades para assegurar a sobrevivência destas escolas passa, então, por aceitar alunos de outras comunidades lusófonas, sobretudo a brasileira. Mas isso raramente acontece. Diniz Borges diz que “há poucos alunos brasileiros nas escolas comunitárias, uma percentagem mínima” e que “existe a tendência para essas comunidades fazerem a sua própria escola.” A entrada dessas crianças acontece sobretudo na costa leste, onde a comunidade brasileira vive nos mesmos locais que a comunidade portuguesa. Mas, mesmo nestes estados, Raquel Rosa diz que os responsáveis costumam resistir à entrada dessas crianças.

Ensino regular
Um dos grandes objectivos do Instituto Camões é aumentar o número de escolas do ensino regular que oferecem português nos seus currículos. “Dada a dimensão da comunidade, o Português tem uma presença nas escolas americanas que ainda deixa muito a desejar” admite António Oliveira. “Há muito espaço para crescer.”
Uma leitura dos números evidencia a vantagem: se nas escolas da comunidade há cerca de dois mil alunos e o número está a diminuir, no ensino regular existem mais de 13 mil e a tendência é para aumentar.
A abordagem tem de ser cautelosa, no entanto, no contexto actual de restrição financeira norte-americana, em que todos os dias os orçamentos das escolas encolhem e os departamentos de línguas são os primeiros a sofrer com esses cortes. “Tudo tem de acontecer passo a passo”, explica António Oliveira. “Primeiro, temos de trabalhar com os distritos com forte presença portuguesa. Tem de existir uma comunidade que se una e reivindique estas aulas. Depois, tem de haver um professor de Português disponível. Finalmente, ajuda muito que existam políticos luso-descendentes, que possam forçar uma mudança.” O responsável dá o exemplo da cidade de Mineola, no estado de Nova Iorque, onde a comunidade se uniu com o senador estadual Jack Martins, e hoje existem aulas de Português no liceu da cidade.
Diniz Borges defende o mesmo caminho, explicando que, “como o sistema não é centralizado, e as decisões são tomadas autonomamente pelas escolas, há muitas mais possibilidades.” Um dos caminhos é a assinatura de protocolos com os estados, como o que Portugal tem com o estado de Massachusetts, desde os anos 90, e com o condado de Miami, na Flórida, desde o ano passado. O Instituto Camões pretende agora replicar o modelo: prepara-se para assinar protocolo com as cidades de Elizabeth e Newark, em Nova Jérsia, e está a iniciar negociações com os estados da Califórnia e de Nova Iorque.
Diniz Borges garante que “não há cursos de Português que não sejam um sucesso; onde existem, estão cheios.” O professor fala da realidade que conhece melhor: no Vale de São Joaquim, na Califórnia, a escola de Turlock passou de 80 alunos para 200 em sete anos; no mesmo período, o liceu de Tulare passou de 180 para 418. “A procura existe. Há oportunidades que temos de agarrar onde existem professores luso-descendentes que podem ensinar Português. Tem de ser este lobby local a trabalhar.”
O professor explica que “40% dos alunos que vão para estes cursos não são portugueses, a maioria é de origem hispânica” e que “o mesmo está a acontecer por toda a Califórnia e também em Massachusetts”.
Para o responsável, o segredo é que “estes cursos se abrem a grupos étnicos e vendem o português como uma língua internacional e não como uma língua de herança”. Borges acredita que “o país não tem feito um bom trabalho a vender o português como uma língua internacional”.
“Há muito espaço para crescer no ensino regular porque os outros grupos étnicos, sobretudo os hispanos, têm um grande interesse pelo Brasil e muita facilidade em aprender português”, defende.
O professor sugere que a expansão do ensino do português se concentre na população hispana. Se assim acontecer, argumenta, o universo de alunos potenciais deixa de ser às dezenas, talvez centenas, de milhares de luso-descendentes e expande-se para a maior comunidade étnica do país, com 53 milhões de pessoas.
“É preciso vender o português como uma língua internacional e não como a língua com que se aprende para conseguir falar com a vovó”, explica o emigrante açoriano. “Embora isso seja muito bonito, não é nada pragmático.”
Universidade
Todas as sextas-feiras, a professora Raquel termina as aulas na Escola Lusitânia e caminha até ao pólo do Brookdale Community College, em Long Branch, onde dá aulas de português.
As aulas começaram em setembro, depois de Raquel descobrir que a mulher do seu contabilista, Nancy Kegelman, era a directora de assuntos académicos da universidade. “Percebi que era uma oportunidade e convidei-a para vir conhecer a escola do clube”, explica Raquel. “Depois, falei-lhe da possibilidade das aulas na universidade, ela gostou da ideia, convidou-me a apresentar um projecto e, passado um ano, abriu a cadeira.”
Para já, Raquel tem apenas 19 alunos. “Mas a escola tem 15 mil alunos e o curso acabou de abrir. O potencial de crescimento é enorme”, acredita.
Ashley Gonçalves, 25 anos, é uma das suas alunas. A estudante de psicologia criminal inscreveu-se na cadeira para tentar aprender a língua do pai, um emigrante madeirense que morreu no ano passado. “O desaparecimento dele funcionou como uma chamada de atenção para as minhas raízes”, diz. Mas a escolha curricular tem outros motivos mais pragmáticos: “Vivemos numa área muito diversa culturalmente e saber mais uma língua pode ajudar-me a arranjar trabalho.”
Maria Melindez, de 24 anos, tem a mesma esperança. Mas os seus colegas não percebem a escolha. “Quando digo que estudo português, dizem: ‘Português? Porquê?’ Ficam confusos. Ainda não percebem o potencial da língua”, diz a estudante de línguas modernas. A confusão dos seus colegas ajuda a justificar os números: apesar do português ser considerada pela revista Bloomberg a sexta língua mais importante no mundo dos negócios, está em 13.º lugar das línguas mais estudadas nas universidades americanas, segundo o último relatório da Modern Language Association. Apesar disso, no Outono de 2009, as universidades americanas contavam 11371 alunos inscritos, o que representava um aumento de 10,8% em relação a 2006.
A revista especializada Language Magazine contou num artigo publicado este ano como, “enquanto os departamentos de línguas são reduzidos, ou completamente eliminados, a procura pelo Português aumenta.”
“Apesar do Português ter sido sempre uma importante língua mundial, apenas recentemente tem sido reconhecido como uma língua importante no mundo dos negócios e relações internacionais”, pode ler-se no artigo. Recentemente, o jornal da prestigiada Universidade de Yale deu eco a esta mesma realidade. “Com a transformação do Brasil numa potência económica global, mais e mais alunos estão a inscrever-se em ‘Português Elementar’, mas o pequeno departamento de Português de Yale não tem professores suficientes para suprir essa necessidade – ou os meios para contratar novos.”
O Instituto Camões tem três leitorados em universidades, comparticipa a colocação de professores, financia certas actividades e tem três Centros Camões, mas António Oliveira admite que “o que acontece de mais vibrante a nível universitário é totalmente independente dos esforços nacionais e quase sempre motivado por um interesse pelo Brasil.”
Na universidade de São José, na Califórnia, por exemplo, há um curso de Português que é inteiramente pago por um fundo criado pela comunidade açoriana. Em Setembro, começou a funcionar na Universidade de Massachusetts, em Lowell, o “Centro Pedroso-Saab para Estudos Portugueses e Culturais”, que foi tornado possível graças aos contributos de Luís Pedroso e do casal Mark Saab e Elisia Saab, empresários de origem portuguesa que doaram cerca de 850 mil dólares (660 mil euros). A partir de Janeiro, a Universidade de Lesley, Massachusetts, em parceria com a Universidade Aberta, lança o primeiro certificado internacional em Estudos Portugueses. Também no próximo ano, a universidade do Michigan vai aumentar a sua oferta de estudos portugueses com uma licenciatura dupla em português e espanhol e um programa específico para alunos de doutoramento no próximo ano lectivo. A presença do português nas universidades americanas tem, no entanto, várias décadas. O mais antigo curso de verão de Português, na Universidade de Massachusetts-Dartmouth, comemorou este ano a sua 20.ª edição.
“Fomos o primeiro curso que surgiu no país, em 1994, e neste momento há cursos semelhantes em vários Estados, o que nos enche de orgulho”, diz Frank Sousa, que foi responsável pelo lançamento do curso e serviu como director do Centro de Estudos Portugueses da universidade até este ano.
O professor garante que “apesar das dificuldades, o ensino do Português nos EUA está numa boa fase” que deve continuar. “Gostava de dizer que este crescimento se deve à maravilhosa situação de Portugal, mas sabemos que não é verdade”, explica. “É, sobretudo, motivado pelo crescimento económico do Brasil e pelo aumento do seu poder político em toda a América latina.”
O contributo da FLAD
Desde o início da sua actividade, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) tem apoiado inúmeras iniciativas para a melhoria do ensino do Português nos Estados Unidos.
Este apoio começa com os mais jovens e o concurso “Ler em Português”, organizado em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares e o Plano Nacional de Leitura. Todos os anos, alunos e professores dos dois lados do atlântico são convidados a apresentar os seus trabalhos, em que desenvolvem um tema definido pela organização. A edição 2012/13 foi subordinada ao tema Liberdade e Segurança numa Sociedade Plural e a do próximo ano, associando-se à comemoração de oitocentos anos de Língua Portuguesa, propõe  o tema “Português, Uma Língua com História. “
O apoio da FLAD também se estende aos professores. O presidente da Associação de Professores de Português dos EUA e Canadá (APPEUC), Diniz Borges, explica que “uma das maiores reivindicações dos professores [de português nos EUA] é a falta de formação para uma realidade em mudança” e a FLAD tem procurado resolver este problema. A Fundação promove a realização de cursos de verão em Portugal que visam contribuir para o aumento dos níveis de qualidade do ensino do Português como língua não materna. O programa foi lançado em 2012 e anualmente são promovidas dois cursos: um na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e outro na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada. Os cursos têm a duração de duas semanas e são certificados. Nas suas quatro edições, atingiram um universo de 56 professores e as edições de 2014 já estão em preparação.
A FLAD tem também apoiado inúmeras universidades norte-americanas na criação de departamentos de estudo da língua e cultura portuguesas. A fundação tem trabalhado com o Council of American Overseas Research Centers (CAORC), uma federação norte-americana de centros de investigação dentro e fora dos Estados Unidos,  no desenvolvimento de um ambicioso projecto de cooperação transatlântica. No seguimento desta colaboração, foi criada uma rede de centros de investigação nas áreas das ciências sociais e humanas e lançado o concurso Bolsas para Docência e Investigação, que atribui bolsas a docentes integrados nas universidades e centros de investigação portugueses por períodos de um a quatro meses. Ao mesmo tempo, o CAORC oferece o programa CLR (Center for Lusophone Research) que promove a mobilidade de investigadores norte-americanos para desenvolverem os seus projectos de investigação em estudos lusófonos nas instituições portuguesas.
Em 1996 e 1998, a FLAD assinou protocolos com a Biblioteca Nacional de Portugal e a Direcção-Geral de Arquivos/Torre do Tombo, para facilitar a pesquisa de fundos portugueses a investigadores de universidades norte-americanas. Mais de uma centena de investigadores, quer em fase de doutoramento, quer em pós-dissertação, já beneficiaram destas bolsas desde o início do projecto.
Nos anos 90 do século passado, a FLAD começou também a apoiar vários estabelecimentos de ensino superior norte-americanos. Estes apoios dirigem-se a universidades onde existem comunidades luso-americanas, mas também a cidades onde não existe uma forte presença portuguesa. Ao abrigo destes protocolos, as universidades financiam a contratação de professores, a abertura de cursos de língua e cultura portuguesas, bolsas de investigação, intercâmbios de professores e alunos e outros eventos que promovem o Português. Entre as universidades beneficiárias, encontram-se várias universidades de prestígio, como a Universidade de São José (apoiada desde 2012), a Universidade de Berkeley (1998), a Universidade de Brown (1993), a Universidade de Georgetown (1997), a Universidade de Chicago (2005) e a Universidade de Massachusetts-Dartmouth e o seu Centro de Estudos Portugueses, que é hoje o maior centro dedicado à lusofonia no mundo anglo-saxónico graças ao apoio da Fundação, estabelecido em 1994.

texto e fotos por Alexandre Soares, jornalista freelancer.